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UFMG bate recorde de descobertas patenteadas

UFMG bate recorde de descobertas patenteadas



Pesquisadores da UFMG obtiveram patentes para 76 descobertas científicas só em 2012, e desde 1992 elas já somam 582, a maioria nas áreas de exatas, engenharia e biologia

Nanotubo de Carbono

Nanotubo de carbono dopado, tecnologia que permite a análise de poluentes da água de forma mais rápida e econômica / Foto: Marcos Michelin/EM/D.A. Press

Belo Horizonte pode se orgulhar de ter um centro de excelência científica. Ele fica na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em seu campus na Região da Pampulha, e bateu em 2012 mais um recorde: foram 76 descobertas patenteadas, um número que vem crescendo desde 1992, quando a primeira foi registrada. A instituição acumula 582 patentes, das quais a maioria foi produzida no Instituto de Ciências Exatas (167), na Escola de Engenharia (158) e no Instituto de Ciências Biológicas (184). A geração de tecnologia para o mercado, nos últimos três anos, superou o número do restante da história da universidade. Ao todo, são 100 contratos de transferência de produtos. Isso tudo faz da instituição uma das três maiores geradoras de tecnologia do país, ao lado da Universidade de São Paulo (USP) e da Petrobras. ”Temos um potencial de 250 patentes por ano que ainda está sendo explorado. A UFMG tem interagido cada vez mais com empresas em um projeto de incentivo à propriedade intelectual”, explica o pró-reitor de pesquisa Renato de Lima Santos. Segundo ele, a cultura de inovação ainda é embrionária no país, já que em 1980 Brasil e Coreia do Sul tinham 150 patentes por ano. Em 2010, o país asiático registrou 25 mil, enquanto os brasileiros tiveram apenas 499.

Mas nunca se produziu tanto na UFMG, segundo Santos, que atribui ao avanço da pós-graduação as condições para a ciência crescer no estado. Outro indicador dessa melhoria são artigos publicados, trabalhos aceitos para publicação e livros e capítulos escritos, que somaram 6.641 no ano passado. Contando com pesquisas divulgadas em revistas, jornais e congressos, são 13 mil publicações anualmente. ”A pós-graduação tem se consolidado de forma marcante. Dos programas de doutorado, 45% têm conceito 6 ou 7 pela avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o mais alto possível, o que indica o nível internacional dos projetos”, explica. Atualmente, a UFMG é responsável por 5,5% da produção científica brasileira. Há 800 grupos de pesquisas, distribuídos por 2.916 professores e 554 laboratórios.

De lá saem tecnologias que possibilitam novos rumos no país, como a descoberta da pós-doutora e professora do ICB Maria de Fátima Leite, que possibilitou revoluções na área da saúde. Em 2003, encontrou uma nova estrutura no núcleo da célula do fígado, responsável pela regeneração. O estudo se tornou referência mundial e ajudou no desenvolvimento de novos tratamentos para o melanoma, isquemia e câncer de pescoço e cabeça. Quanto ao último, já está em teste uma radioterapia com menor nível de radiação, o que trouxe mais qualidade de vida para o paciente.

Desafio

Na Escola de Engenharia, o novo desafio é projetar o sistema computacional do primeiro motor a álcool do mundo. O projeto, coordenado pelo professor Ramon Molina, doutor em engenharia mecânica, prevê a redução de emissão de poluentes e consumo. Com a previsão de chegada ao mercado, em carros populares, em até três anos, o novo motor será de baixa cilindrada e deve se igualar à eficiência do motor a diesel.

Também com um viés sustentável, o Departamento de Química é pioneiro em pesquisas aplicadas ao mercado. Dois projetos do laboratório foram primeiro e terceiro lugares geral de um prêmio internacional neste ano. O vencedor é um catalisador que transforma óleo de fritura em biodiesel. Primeiro no mundo, ele barateia o combustível e acha um uso para um produto que não tem aplicação e é considerado nocivo ao meio ambiente.

Reconhecimento em várias frentes

Prioridade para a saúde

Professora Maria de Fátima Leite

Professora Maria de Fátima Leite tem pesquisa premiada sobre cálcio / Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A. Press

Entre microscópios, tubos de ensaio e substâncias coloridas, o que chama atenção no Laboratório de Sinalização de Cálcio do Instituto de Ciências Biológicas são as garrafas de champanhe. Diversas delas agrupadas em uma prateleira, com etiquetas referentes a descobertas científicas. ”Faço questão de comemorar a boa notícia. Se publicamos um artigo em uma revista importante do ramo, abrimos um champanhe”, conta a coordenadora do grupo, Maria de Fátima Leite. Aos 47 anos, pós-doutora pela Escola de Medicina da Universidade de Yale, nos EUA, ela descobriu novas tecnologias na saúde. Ao pesquisar o cálcio, que regula todas as funções do corpo, descobriu no núcleo da célula do fígado uma nova estrutura chamada organela, que armazena a substância e é responsável pela regeneração do órgão. O retículo nucleoplasmático foi incluído nos livros de biologia em 2003. O estudo se tornou referência mundial e ajudou no desenvolvimento de novos tratamentos para o melanoma, isquemia e câncer de pescoço e cabeça. Fátima tem uma bolsa de estudos na Howard Huges, que investiga como o cálcio regula a regeneração do fígado, o que pode auxiliar no entendimento de tumores. ”As descobertas mais legais são as inesperadas. O segredo é não desvalorizar o acaso”, conta Fátima, que encontra tempo para almoçar com o filho de oito anos todos os dias. ”Só tem sucesso quem tem balanço na vida, não o vício em trabalho. Aqui é muito intenso. A pesquisa por si só é frustrante. Cerca de 80% do que se faz dá errado. Tem que saber lidar e ter persistência”, diz.

Maratonista tecnológico

Aluir Dias

Pós-doutorando em química, Aluir Dias tem prêmios internacionais / Foto: Marcos Michelin/EM/D.A. Press

Até o Natal, Aluir Dias só tem um fim de semana livre para descansar. A maratona de atividades faz parte de um grande desafio: acabar com os obstáculos entre a universidade e o mercado, ambientes onde as linguagens são totalmente diferentes. Pós-doutorando em química aos 33 anos, ele já acumula funções importantes na UFMG. É coordenador do setor de empreendedorismo, coordenador da incubadora de empresas e professor voluntário. ”Muitas vezes, o pesquisador tem uma ideia com potencial, mas não sabe como transformá-la em uma empresa. Nosso papel é pegar esse conhecimento e levar para o mercado”, conta. Não é à toa que o Grupo de Tecnologias Ambientais (GTA) do Departamento de Química trabalha com pesquisas aplicadas no viés mercadológico. Dois projetos do laboratório foram primeiro e terceiro lugares geral de um prêmio internacional este ano. Um deles faz parte da pesquisa de pós-doutorado de Dias, o nanotubo de carbono dopado, uma tecnologia que permite a análise de poluentes da água de forma mais rápida e econômica. Foram sete meses de estudo na França para entender o desenvolvimento do equipamento, que atrai os contaminantes dos fluentes por magnetismo. O outro é o supressor de poeira feito a partir de um resíduo do biodiesel que antes não tinha aplicação e é considerado um passivo ambiental no setor de mineração. Outra pesquisa envolve o catalisador que transforma óleo de fritura em biodiesel, o primeiro no mundo, que barateia o combustível.

Atrás de um motor inédito

Professor Ramon Molina

Ramon Molina coordena o Centro de Tecnologia da Mobilidade / Foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A. Press

Criar o primeiro motor a álcool do mundo. Esse é o atual desafio do Centro de Tecnologia da Mobilidade (CTM) da Escola de Engenharia. O modelo computacional desenvolvido especificamente com base no etanol é resultado de uma parceria da UFMG com uma montadora de veículos italiana, que investirá R$ 1,8 milhão na pesquisa. Quem coordena o projeto é o professor Ramon Molina, doutor em engenharia mecânica, que vê um grande potencial no combustível para redução de emissão de poluentes e consumo. Segundo ele, a expectativa é de que o novo motor, de baixa cilindrada, ganhe 10% em eficiência e fique no nível do motores a diesel. Depois que a equipe de Molina, composta por alunos de graduação, mestrado e doutorado, desenvolver o sistema no computador, ele será entregue à montadora, que pretende substituir os motores de carros populares. Em três anos, a tecnologia pode estar inserida no mercado. ”No futuro, os motores serão todos 1.0 para baixo e turbinados”, prevê. Nascido em El Salvador, na América Central, Molina veio em 1974 para o Brasil, onde se formou em engenharia química e fez o mestrado na UFMG e o doutorado em Santa Catarina. Montou o laboratório na UFMG e, aos 60 anos, administra o CMT. Atualmente, seis grandes projetos estão em curso, em parceria com empresas como Petrobras e Vale. Molina dá aulas para cinco turmas e participa de orientações e bancas mundo afora. Ele chega às 8h ao centro, do qual só sai às 22h30. ”Muitos perguntam o que a gente faz aqui o dia inteiro. Quem está aqui é porque gosta mesmo. Tiro férias só para constar”, diz.

Por Juliana Ferreira
Fonte: Jornal Estado de Minas

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